João Escoto Erígena

História da Filosofia Medieval – Sistematização
Cesar Augusto de Azambuja Brod
Professora Luciana da Silva Mendes Ferreira
Outubro de 2008

Ensaio:
João Escoto Erígena

Prefácio

Este ensaio usa de licença poética para situar o filósofo João Escoto Erígena em seu tempo, buscando interpretar as razões de seu filosofar e propondo uma história possível. Ainda que os fatos a partir da vida adulta de João estejam diretamente baseados nas leituras sobre o mesmo, sua infância é apenas suposta e inventada.

Prólogo

Irlanda, véspera de ano novo, 809. Não era a primeira vez em seus 14 anos que Maria gozara das festas do monastério. Também não era a primeira vez em que os monges, tomados pelo vinho, faziam coisas que depois negavam. Para os pais de Maria, o maior orgulho era ter a filha como servente do monastério. Orgulho misturado com o benefício de tudo o que a filha trazia para a humilde casa, cheia com mais onze irmãos. Maria era a do meio. A mais bonita até aos olhos do pai que, inúmeras vezes, preferia-a e a tinha antes da mãe. A mãe de Maria a sabia prenha. Achando-se muito jovem para ser avó e tendo já filhos demais, abortou a menina ao monastério. Maria era boa obreira, o filho uma dúvida, mas antes, assim fosse.

João nasceu sem condições de avaliar a mãe morta e a culpa de um suposto pai, de quem carregava característico sinal que permitiu-lhe a vida. Cresceu à base de leite de cabra e outras farturas. Aprendeu a ler cedo, inclusive em latim. Aprendeu a ouvir em latim, o que lhe permitiu saltos além do monastério.

João sabia-se afortunado com o acesso a tudo o que poderia ler e mais, sabendo latim. Auto-didata e curioso, com acesso à biblioteca dos monges, ia e voltava do latim ao grego com uma facilidade impressionante. Criado na fé, aculturado em leituras e nascido ao léu, considerava-se um predestinado. Grato à sua vida e criação, assume o mestre como pai e passa a relatar seus diálogos com ele. Mas imerso nos gregos, conflita o Aristóteles e Platão que lê com os ensinamentos com os quais serve aos monges, com a mesma subserviência de sua mãe (antes de dar-lhe cria) que sequer sabia dos gregos.

Ao invés de criar um demônio pessoal, João interpretou as leituras de Platão à sua maneira: “tudo volta ao início”. E o início era a sua busca. Aprendera no diálogo com os monges a relação entre mestre e discípulo. Tinha a certeza de que o que acreditava permaneceria, independente dele. Nutria-se intelectualmente das leituras dos monges, assumindo postura subalterna, mas absorvendo além dos supostos mestres.

A construção da identidade

Não demorou muito a que João fosse incumbido da tradução de pequenos textos gregos para o latim, as quais ele assinava com o nome do meio Escoto (Scotus), apontando sua origem irlandesa e gaélica. Era como se buscasse preservar sua origem em meio a tantas idéias novas que surgiam em meio a suas múltiplas e diversas leituras. Em meio a estas traduções, João Escoto Erígena resolveu produzir um tratado sobre a Eucaristia, um dos principais (se não o principal) dogma do catolicismo, durante o qual ocorre a transformação de pão e vinho no corpo e sangue de Jesus Cristo (a chamada transubstanciação). Ele assumia a importância da Eucaristia como celebração e lembrança, mas questionava a transubstanciação. Talvez por ainda estar na Irlanda e pela lenta velocidade de propagação dos textos escritos entre as várias partes do mundo, o mesmo só foi causar impacto bem mais tarde, no século 11, quando Berengar de Tours o usou em seu próprio questionamento à transubstanciação. Berengar foi condenado a queimar publicamente o texto de João, do qual não foram localizadas novas cópias até hoje. De qualquer forma, este já é um bom exemplo de como as idéias do irlandês ultrapassaram sua existência.

Mesmo com seus questionamentos, João parecia sempre levar em conta a validade dos ensinamentos cristão acima de tudo. A extensão da divulgação sobre seu tratado sobre a Eucaristia ainda é desconhecida, mas o fato é que ela não impediu que Hincmar, o arcebispo de Reims, já conhecendo da genialidade notável do jovem irlandês, o convidasse a escrever uma defesa ao livre arbítrio, opondo-se às idéias do monge Gotteschalchus, que propagava a predestinação.

Ora, a vida de João, que antes parecia mesmo ser levada por uma certa predestinação, adquiria um novo significado. Tantos outros passaram pelo monastério e saíram por um motivo ou outro. O fato é que ele havia escolhido ficar, aprender e até mesmo ter a ousadia de questionar um dogma de sua religião. João escreveu mais um tratado, De divina praedestinatione, este preservado até os dias de hoje, tendo servido à igreja católica e citado em concílios. É nele que Erígena fala, pela primeira vez, que filosofia e religião são basicamente a mesma coisa, que há recompensa para os bons e que os homens são originalmente destinados a serem santos.

Paris

Carlos, o Calvo, imperador francês, desejava uma tradução para o latim das obras de Pseudo-Dionísio, o Corpus Areopagiticum, que influenciaram a mística cristã e as artes na idade média. Já conhecedor dos trabalhos de Erígena, o próprio Carlos convidou-o a corte parisiense, onde passou o resto de sua vida. Os textos tinham valor quase apostólico, já que Dionísio era considerado o primeiro discípulo de Paulo de Tarso. Sua influência durante o período gótico levaram, inclusive, à construção da obra arquitetônica mais representativa deste período, a basílica de Saint Denis (Santo Dionísio). A tradução de Erígena e outros estudos posteriores levaram à conclusão de que o texto jamais poderia ter sido escrito por Dionísio, mas apenas no século XIX isto foi admitido pela igreja católica.

À época da tradução, o Papa Nicolau I ficou ofendido pelo fato da obra ser disponibilizada publicamente antes da aprovação da igreja, ordenando que João fosse enviado à Roma ou ao menos expulso da corte parisiense. Ao que tudo indica, tal ordem foi ignorada. João agora ganhara fôlego e prestígio para escrever sua maior obra, De divisione naturae, enquanto continuava a dar aulas de gramática e dialética.

A principal obra

Em De divisione naturae, Eurígena apresenta um diálogo, dividido em cinco livros, onde um mestre apresenta a seu discípulo a natureza como um sistema. No diálogo Periphyseon é introduzido o princípio chamado “natura”, tudo aquilo “o que é” (ea quae sunt) e “o que não é” (ea quae non sunt), distinguindo o que pode ou não pode ser conhecido. Mas há o problema de saber o que é verdade, uma vez que o que vemos são sempre resultados de manifestações do mundo e nunca sua essência. A partir desta argumentação, a natureza é dividida em quatro partes, cada uma interdependente das demais e sendo, em conjunto, Deus, apresentado como o começo, o meio e o fim de todas as coisas.

O trabalho tomou sete anos da vida de João, entre 1860 (época em que conclui a tradução de Pseudo-Dionísio) e 1867. Sua intenção original era dedicar um livro para cada uma das quatro divisões da natureza: o primeiro lida com a natureza divina e o surgimento e o fim de todas as coisas a partir de Deus; o segundo trata das Causas Primordiais enquanto o terceiro dos Efeitos, incluindo a natureza e os estágios da criação do mundo. A criação do homem faz com que o autor mude de idéia, dedicando todo o quarto livro a este assunto e deixando o quinto para um retorno mais profundo a Deus, como a conclusão e união de todas as suas idéias.

A obra é bastante complexa, com conceitos inicialmente expostos que parecem contrariar às soluções às quais se deseja chegar no diálogo entre o mestre e o discípulo. Logo no Periphyseon, por exemplo, são iniciadas as discussões que levam à explicação entre o “que é” e o “que não é”, onde são propostas cinco formas de interpretação (quinque modi interpretationis). Segundo o primeiro modo, as coisas acessíveis aos sentidos e ao intelecto são ditas “que são”, enquanto qualquer outra coisa que transcenda a compreensão pelas mesmas capacidades são ditas “que não são”. Por esta classificação Deus, em função de sua transcendência, é “o que não é”, ou é “nada por excelência” (nihil per excellentiam).

Mas isto não é, de fato, uma negação de Deus. Ele apenas transcende todas as coisas e seres criados. Aí faz-se a distinção entre o “nada por excelência” – aplicado a Deus e a tudo o que transcende – e o “nada por privação” (nihil per privationem), aplicado ao que é material. De maneira similar, Erígena (como Santo Agostinho) também considera “nada” a criatura sem Deus.

Epílogo

O final da vida de João é um mistério. Há boatos que teria sido assassinado por seus alunos, que teria sido convidado para trabalhar em Oxford por Alfredo, o Grande, onde teria ficado por muitos anos até tornar-se abade na cidade de Malmesbury. Não há mesmo evidências de que ele tenha sido um leigo ou que era parte do clero, ainda que as condições da época e seu conhecimento façam crer que ele era, provavelmente, um monge.

Seu trabalho distinguiu-se pela liberdade em sua especulação (algumas vezes puramente empírica) e sua ousadia ao abordar de forma lógica e dialética os sistemas do universo e a existência e natureza de Deus. Historicamente, marcou a transição entre uma filosofia mais “platônica” e o formato final que a escolástica tomou.

Conclusão

Ao ler sobre Erígena e seu tempo, admiro sua curiosidade e coragem, sem saber dizer qual seria a maior. A curiosidade ao explorar assuntos tabu, como a transubstanciação certamente requereu coragem em doses equivalentes. Salvo se sua curiosidade era tão grande a ponto de sequer se dar conta das conseqüências para as quais deveria ter a devida coragem. De qualquer forma, Erígena pareceu ter paz suficiente para elaborar sua filosofia, provavelmente sobre a proteção e patrocínio, ora da corte parisiense e ora da igreja católica. Mais ao final, porém, especialmente após a tradução de Pseudo-Dionísio sem a bênção do Papa, parece que Erígena caiu mais na graça da nobreza que já questionava o avanço e o poder da igreja.

Tudo indica que Erígena manteve-se fiel a seus questionamentos e pensamentos, mesmo que fortemente influenciados pelos filósofos gregos e cristãos.

Bibliografia

RUSSEL, Bertrand. A Filosofia entre a Religião e a Ciência, In Russell, B. (1977): História da Filosofia Ocidental, Rio de Janeiro: Cia. Editora Nacional.

Apostila de História da Filosofia Medieval, UCB: EAD, 2007

Stanford Encyclopedia of Philosophy: http://plato.stanford.edu/entries/scottus-eriugena/

Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Johannes_Scotus_Eriugena

Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Transubstancia%C3%A7%C3%A3o

Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Berengarius_of_Tours

Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pseudo-Dion%C3%ADsio,_o_Areopagita


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