Antropologia Filosófica, uma visão pessoal


Antropologia Filosófica – Sistematização
Cesar Augusto de Azambuja Brod
Professor Luis Alberto Delgado
Outubro de 2008

Ensaio:
Antropologia Filosófica, uma visão pessoal

Introdução

Decidi por fazer o curso de Filosofia depois de muitas incursões, desde 1982, por diversas faculdades. Acabei por descobrir, chegando ao final do terceiro período, que minha busca pela Filosofia já estava latente em todas as incursões anteriores, especialmente através dos estudos da análise da natureza humana na disciplina de Antropologia Filosófica.

Concluí meu curso técnico em eletrônica em 1981. Em 1982, grandemente influenciado por meu professor, Rocco Lence, comecei a cursar Física na USP. Em 1985, em função de meu casamento e muitas viagens à trabalho, tranquei o curso, que retomei na UFRGS, em Porto Alegre, no ano de 1987. Mais viagens, muitas provas em gabinetes de professores, o curso ficou trancado “até a hora em que eu puder voltar”. Tal hora nunca aconteceu. Neste período acabei por fazer muitos cursos profissionais nos Estados Unidos, Canadá, participei de projetos na França, tudo muito enriquecedor, mas nada que contasse para a minha vida acadêmica. Apenas quando mudei-me novamente para o Sul do Brasil, no final dos anos 90, resolvi voltar à faculdade. Análise de Sistemas foi a opção natural, pois tinha a mais a ver com o que eu trabalhava. Não funcionou. O curso não me trazia nada de novo. Tentei Administração para ver se eu conseguia melhorar algo em minha empresa. Achei um tédio. Pensei: “preciso dar um foco melhor para isto”. Segui em Administração, com ênfase em Comércio Exterior. Era o mesmo curso, o mesmo tédio. Eu tinha que fazer algo que gostava e que não necessariamente estivesse relacionado ao meu trabalho. Comecei um curso de História pelo qual me apaixonei, mas no segundo semestre abateu-me uma pancreatite que tirou-me de circulação por alguns meses e, mais uma vez, dei uma parada. Em 2006 conheci a proposta da UCB e em 2007 comecei meu curso de Filosofia, que espero concluir!

A minha natureza

Uma das razões pelas quais voltei ao Sul era não querer mais viajar tanto. Depois de vários anos em São Paulo, vivendo mais de três horas por dia dentro de um automóvel e viajando mais de quatro vezes ao ano para o exterior e tantas mais pelo Brasil, eu queria dedicar mais tempo para a minha família e para mim mesmo. Assumi a gestão de informática da Univates, em Lajeado e tive tempo para dedicar-me a meus hobbies, como tocar violão e construir rádios de galena. Virei cantor de três corais e vocalista de uma banda de rock. Acabei também por gerenciar uma equipe de desenvolvimento de sistemas, que transformou-se em uma cooperativa. Esta experiência rendeu-me convites para viajar por todo o Brasil e por novos lugares do mundo que eu ainda não conhecia, como Turquia, Finlândia, Espanha, Costa Rica e tantos outros. Talvez em função da chacoalhada que a pancreatite me deu acabei por conformar-me à minha natureza de caixeiro viajante. Era algo que simplesmente eu não tinha mais como negar. Por mais que viagens deixem-me ansioso a ponto de passar fisicamente mal de véspera, elas são algo do que necessito. Eu só não sabia exatamente o porque disso. Hoje tenho algumas pistas.

Outras naturezas

A primeira coisa que faço ao chegar em um local novo (ou mesmo rever um antigo) é procurar por um supermercado, um barzinho ou restaurante onde os nativos se reúnem. Gosto de passear em parques, assistir TV, visitar livrarias. Para iniciar uma conversa, livrarias e supermercados são os melhores lugares. Boa parte das pessoas está disposta a recomendar um produto alimentício ou livros de autores locais. Fazem isto com um certo orgulho até. A partir daí, a conversa flui solta e descompromissada. Descobri autores como o uruguaio Mario Benedetti, o espanhol Lorenzo Mediano, o inglês Douglas Adams e tantos outros em conversas assim. Também engordei alguns quilos graças a Cinnamon Rols e Ceviches e fiquei com a cabeça mais leve (não necessariamente) por causa de umas doses de Raki.

Raki, um destilado de uvas aromatizado com anis, é a bebida típica da Turquia. Fui para a Turquia participar de um evento de tecnologia. Os organizadores foram extremamente gentis, colocando-me em um hotel no centro de Istambul durante o final de semana após o evento para que eu pudesse conhecer a cidade. Durante o evento, sempre havia alguém que falasse em inglês e ciceroneasse os palestrantes, mas eu ainda queria fazer meu passeio entre os nativos. Ao contrário de outros lugares em que estive, onde eu falava a língua ou ao menos podia comunicar-me em uma língua comum, na Turquia isto não acontecia. Nos pequenos mercados populares do centro de Istambul (não os destinados aos turistas, onde todos os vendedores são poliglotas) só se fala turco. Como o inglês era inútil, apelei direto à linguagem corporal universal e, apontando para mim, dizia: “Brasil! Brasileiro!”. As respostas eram as esperadas: “Senna! Pelé! Ronaldo! Samba!”. Gastei muito menos que os colegas que optaram pelos pontos turísticos (que acabei por também visitar) e não experimentei nenhuma violência ou assédio, coisas temidas pelos visitantes. Eu estava no mercado de Constantinopla, encontro de culturas orientais e ocidentais. No micro-canto étnico de minha casa tenho pequenas estátuas representando músicos turcos, que me fazem lembrar dos sons de Istambul. Mas se eu começar a falar dos lugares e suas músicas este ensaio não terá fim.

A natureza humana

Abri minha apostila de Antropologia Filosófica e fui saudado pelas perguntas:

O que é o homem?
Como este ser se insere dentro da realidade múltipla que habita?
É detentor de autonomia frente às leis do universo ou está sujeito às mesmas condições?

O texto da apostila, os fóruns da disciplina e outros recursos que eu e outros colegas apontamos, muitos de filósofos famosos (outros nem tanto) levaram a propostas para estas respostas. Algumas firmemente defendidas ou abertamente refutadas por uns e outros. Mas o que é a filosofia sem o nosso próprio olhar de admiração e espanto sobre tudo? Mesmo valendo-me dos múltiplos olhares dos colegas não pude deixar de entender as perguntas acima de uma forma muito pessoal. Sabendo quase nada de Antropologia Filosófica, procurei ater-me ao método proposto (que depois descobri ser mais uma sugestão a ser seguida do que uma fórmula imutável) e voltar à estas questões, buscando as respostas para elas a cada nova leitura. Como era de se esperar, ao invés de respostas o que consegui foi aumentar minha coleção de perguntas.

O homem sou eu

Assisti a uma palestra sobre “Filosofia política contemporânea”, ministrada pelo Professor Milóvic Miroslav. Ele traz Descartes para a discussão. Por quê “penso, logo existo!” ao invés de “penso, logo mais alguém existe!”?

Claro que a filosofia cartesiana é, mal-e-mal, um pedacinho da Antropologia Filosófica. Aliás, Descartes buscou um método para rebater o ceticismo de Montaigne. Já vi muita gente dizer “tudo é relativo”, atribuindo esta afirmação a Einstein. Montaigne veio antes.

Tua mãe te falou
Tem cuidado com as más companhias
Mas o que é se dar bem ou se dar mal?
Acontece, meu bem
Que pra alguém ser feliz hoje em dia
Tem que ver o lado escuro da Lua
Desde que meteram a mão
Na árvore do bem e do mal
Onde é que fica o Paraíso?
Além do mais, Einstein liberou:
“Tudo é relativo”
Não há mais nada proibido
Kledir Ramil e Bebeto Alves em “O lado escuro da lua”

Só que Montaigne não liberou nada, ao contrário!

Somos vítimas da inconstância, da irresolução, da incerteza, do luto, da superstição, da preocupação com a morte, inclusive o de depois da morte, da ambição, da avareza, do ciúme, da inveja, dos apetites desregrados e insopitáveis, da guerra, da mentira, da deslealdade, da intriga, da curiosidade. Pagamos, pois, bem caro a tão decantada razão de que nos jactamos, e a faculdade de julgar e conhecer, se a alcançamos, é à custa do número infinito de paixões que nos assaltam sem cessar.
Montaigne

Para Montaigne, tudo é muito relativo a valores arraigados a nossos costumes, história, tradição, superstição, pai, mãe, avó e todos os outros além de nós. Os outros todos são nosso “encosto”.

Daí a dúvida: “penso, logo existo!” ou “penso, logo mais alguém existe, na boa!” ou “penso, logo existo, logo alguém mais vai me torrar o saco!”. Sei lá! Mas eu sou eu!

A realidade múltipla em que habito

Descartes propôs um método que tinha como principal falha a conclusão como parte do próprio método. A dúvida metódica de Descartes tinha que levar à conclusão “penso, logo EU existo”. Mas não negava que existimos sujeitos a certas leis da natureza (ele descreveu o aparelho circulatório do corpo humano muito bem) e que Deus nos concedeu o livre arbítrio.

Mas se Deus nos concedeu o livre arbítrio, por quê devemos nos conformar com um método?

Trabalho com metodologias ágeis (que de cartesianas não tem nada). A principal premissa de uma metodologia ágil é: “se o resultado apresenta-se melhor que o proposto pelo método, muda-se o método e não o resultado”.

Por isso prefiro pensar que penso, logo existo, mais gente existe pra adicionar e uns outros tantos existem pra torrar o saco. Voltando ao Professor Milóvic Miroslav, ele diz que diz que nossa vida perdeu a autonomia e ficou ligada a um normativo que ora inclui, ora exclui, outra inclui na exclusão (cria uma exclusão normativa na qual indivíduos podem ser incluídos). Ele também fala dos campos de concentração (invisíveis) do mundo atual. Isto me remete ao Iluminismo, onde a única iluminação provinha daqueles que julgavam-se os donos da verdade, levando a um estado de colonialismo com a desculpa de levar a “luz” a todos.

Ora, o velho Aristóteles já dizia que é impossível dissociar o vivente de seu grupo, por mais que se queira preservar sua autonomia. “Penso, logo existo!”. Mas se tocar a campainha eu atendo. “Penso, logo existo!”. Mas se isto me der uma dor de cabeça monstra eu vou procurar um médico.

Liberdade

De nossa apostila:

O homem em sua liberdade de associação e constituição social é o responsável pelas convenções, mas deve perceber que estas não se justificam pela natureza humana.

Ou seja, somos livres para determinarmos convenções que tolham nossa natureza humana. Prefiro a citação seguinte:

Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.

Este é o final da narração feita pelo ator Paulo José no curta-metragem Ilha das Flores, dirigido por Jorge Furtado, um dos sócios da Casa de Cinema de Porto Alegre. A primeira sentença é a definição de um dicionário. A segunda é de autoria da poetisa Cecília Meireles.

Conclusão

Comecei este ensaio pensando em não deixar de lado Goethe e Nietzche. Afinal, entre a desgraça humana, o super-homem e a relação de ambos com o conhecimento há muito o que falar. Mas ao seguir por este caminho percebi que mais fazia a análise do pensamento alheio do que do meu próprio. O pensamento alheio está disponível em tudo o que já está escrito por tais alheios. Assim, preferi contextualizar brevemente meus valores arraigados, minha vontade do novo e uma busca pela interpretação da liberdade, antes de começar a citar a apostila, filósofos, poetas e amigos.

A descoberta da estrutura essencial de um indivíduo, creio eu, pode começar por um mergulho interno, levantando a cabeça para respirar o aprendizado de mergulhos externos e anteriores. Termino com uma citação de Paul-Ludwig Landsberg sobre a Antropologia Filosófica:

Explicação conceitual da idéia do homem a partir da concepção que este tem de si mesmo em determinada fase de sua existência.

Cesar Brod
Outubro de 2008


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